Sinais de que a pessoa tem compulsão por jogos

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Sinais de que a pessoa tem compulsão por jogos

Conheça os principais sinais da compulsão por jogos, entenda quando o hábito deixa de ser lazer e passa a comprometer a vida pessoal, social e profissional, e saiba quando buscar ajuda especializada.

Nossa clínica se estruturou e se preparou, muito tempo antes do jogo patológico se apresentar como um grande problema de saúde pública no Brasil. Sabíamos através de alguns sinais mundo afora, que com a facilidade dos jogos na palma da mão dos indivíduos, que tal demanda chegaria e que precisaríamos estar preparados para ela. 

Historicamente, os jogos já foram instrumentos de diversão, disputas e até guerras. Com o tempo, viraram objetos de seriados, filmes, novelas e, por fim, ganharam uma conotação mais triste, desta vez atrelada à realidade: a adicção.

A compulsão por jogos é uma condição que domina cada vez mais pessoas, levando-as a seguirem um rumo aparentemente sem volta, no qual é preciso estar jogando sempre mais.

Como todo vício é uma desordem química cerebral que envolve neurotransmissores, o cérebro passa a associar o jogo à sensação de recompensa e prazer, ativando mecanismos relacionados principalmente ao sistema de recompensa cerebral. Com o tempo, a pessoa sente necessidade de jogar cada vez mais para obter a mesma sensação de satisfação. 

Embora nem todas as pessoas que jogam desenvolvam uma dependência, segundo um estudo desenvolvido pela USP, 28% dos jovens que jogam se enquadram no Transtorno de Jogo pela Internet (TJI). Esse problema entre jovens brasileiros é maior do que em todos os países que já têm pesquisas, onde a média oscila de 1,3% a 19,9%, e precisa ser analisado sob a perspectiva de epidemia, segundo o estudo.

A compulsão por jogos é reconhecida como um transtorno comportamental quando a pessoa perde o controle sobre o hábito de jogar, continua mesmo diante de prejuízos pessoais, familiares, acadêmicos ou profissionais e encontra dificuldade para interromper esse comportamento. O diagnóstico deve ser realizado por um profissional de saúde mental, considerando a intensidade, a frequência e o impacto dos sintomas na vida cotidiana. 

Desde 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece oficialmente o Transtorno por Jogos Eletrônicos (Gaming Disorder) na Classificação Internacional de Doenças (CID-11). Segundo a entidade, o transtorno é caracterizado pela perda de controle sobre o comportamento de jogar, prioridade crescente dada aos jogos em relação a outras atividades e continuidade do hábito mesmo diante de consequências negativas. 

Mesmo os jogos como caça-níqueis, cartas ou videogames sendo classicamente conhecidos como viciantes, independentemente do tipo de jogo, é importante conhecer os sinais que alertam para a possibilidade de uma pessoa ser um jogador patológico, isto é, sofrer de compulsão por jogos.

Vale lembrar que gostar de jogar ou dedicar algumas horas da semana aos jogos não significa, por si só, que exista uma compulsão. O que chama a atenção é a persistência do comportamento, a perda de controle e os prejuízos que ele provoca na vida da pessoa ao longo do tempo.

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Sinais de que pessoa tem compulsão por jogos

1. Raiva e frustração por ter de parar

Escolher um jogo para se divertir com os amigos é bem diferente de sentir uma necessidade incontrolável de jogar. Quem joga somente porque se sente impelido a isso provavelmente é um forte candidato a já estar sofrendo de compulsão por jogos, mesmo sem saber.

É imprescindível perceber a diferença entre a brincadeira e quadros mais sérios, nos quais a pessoa fica depressiva ou com raiva pelo simples fato de ter que abandonar o jogo, ou nem mesmo se sente capaz de parar de jogar.

2. Abandono da rotina

Quando a compulsão chega, os compromissos se vão. Tarefas que antes eram comuns e cotidianas, ficam completamente prejudicadas.

Quem abandona a própria rotina, ou não consegue mais se concentrar em suas tarefas normais por causa do jogo, já ultrapassou o limite não só da razão, mas também da compulsão.

Jogadores patológicos acabam abandonando completamente quaisquer outras atividades: estudos, trabalho, amizades e muitas vezes até as interações familiares e sociais são prejudicados ou até interrompidos definitivamente, tudo porque o jogo vira uma ilusão, que distrai e convence o jogador de que o contato virtual é mais interessante, tornando-o incapaz de interagir pessoalmente.

Em crianças e adolescentes, esses prejuízos costumam aparecer primeiro na queda do rendimento escolar, na redução do convívio familiar e na dificuldade para manter outras atividades de lazer. 

3. Afastamento de tudo e de todos

Uma das principais pistas de que alguém já passou dos limites no jogo é o isolamento.

Quando o tempo e a energia gastos no jogo ultrapassam certo ponto de equilíbrio, o jogador acaba só conseguindo interagir com pessoas online, perdendo aos poucos o contato com pessoas e experiências que fazem parte de sua realidade.

4. Esconder ou mentir sobre o tempo gasto jogando

Esconder ou minimizar o tempo gasto jogando é um comportamento frequentemente observado por profissionais de saúde mental durante a avaliação de pessoas com suspeita de compulsão por jogos.

À medida que a compulsão se instala, é comum que o jogador passe a esconder quanto tempo dedica aos jogos ou minimize esse comportamento quando é questionado por familiares e amigos. Em alguns casos, cria desculpas para justificar longos períodos diante do computador, do celular ou do videogame, evitando admitir que perdeu o controle sobre o hábito.

Esse comportamento costuma surgir porque o próprio jogador percebe, ainda que parcialmente, os prejuízos causados pelo excesso de tempo dedicado aos jogos. Mentir ou omitir informações torna-se uma forma de evitar conflitos, críticas ou preocupações por parte das pessoas próximas.

5. Falta de interesse nas realizações da vida real

Não se assuste, o mundo virtual foi projetado para ser interessante mesmo, e para prender a atenção dos indivíduos pelo maior tempo possível.

Não é à toa que alguns jogadores se envolvem tanto nos níveis, prêmios e realizações que os jogos oferecem e acabam perdendo o interesse pela realidade. Muitos inclusive se tornam apáticos e demonstram completo desinteresse por qualquer outro tipo de passatempo que demande talentos ou habilidades do mundo real.

6. Perda de algumas habilidades

Logo após um curto espaço de tempo, o estímulo constante gerado pelos gráficos de alta tecnologia e pelos jogos em si pode, ironicamente, ocasionar a perda das próprias capacidades imaginativas.

Isso porque, na maioria das vezes, numa tentativa de se tornarem “especialistas” em determinado jogo, os jogadores compulsivos repetem sempre as mesmas habilidades – geralmente as necessárias àquele jogo – o que culmina na perda completa de outras habilidades cotidianas, pois mesmo a imaginação também precisa de prática para ser mantida.

7. Variações extremas de humor

Assim como no caso de qualquer outra dependência, pouco a pouco, o jogador compulsivo começa a precisar aumentar o tempo e a intensidade do jogo para liberar a norepinefrina e sentir a mesma intensidade de prazer e, em igual intensidade e consequentemente, o isolamento social e a abdicação de outras atividades também.

Todas essas mudanças deixam o indivíduo sem o apoio emocional que deveria ter dos amigos e familiares, o que pode fazer com que ele passe por variações ainda mais extremas de humor, como uma explosão de raiva quando questionada a razão de jogar por tanto tempo, ou ao ser solicitado que pare de jogar.

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A medida não está no jogo, mas no jogador

Embora qualquer pessoa possa desenvolver uma compulsão, alguns fatores aumentam esse risco. Dificuldades para lidar com emoções, ansiedade, depressão, impulsividade, baixa autoestima e isolamento social são alguns exemplos. Em muitos casos, o jogo acaba sendo utilizado como uma forma de aliviar sentimentos desagradáveis, criando um ciclo difícil de interromper. 

Cabe ressaltar que nem todo jogo é um vilão. Assim como existem incontáveis tipos de jogos violentos, intensos e prejudiciais, há centenas de jogos educativos, divertidos e que ajudam muito na aprendizagem, por exemplo.

A medida não está precisamente no jogo, e sim na pessoa e no tempo que ela gasta jogando. Uma das principais características de uma compulsão é quando o indivíduo perde sua capacidade de autogestão, e passa a ter suas decisões, atividades e a própria vida governadas pelo jogo.

Assim como acontece em outras dependências comportamentais, reconhecer os primeiros sinais aumenta significativamente as chances de interromper a progressão do problema e recuperar a qualidade de vida. 

Procurar ajuda psicológica não significa que a situação esteja fora de controle. Pelo contrário: quanto mais cedo a compulsão é identificada, maiores são as chances de recuperar o equilíbrio entre o lazer, os relacionamentos e as demais áreas da vida.

Perguntas frequentes sobre compulsão por jogos

O que é compulsão por jogos?

A compulsão por jogos é um transtorno comportamental caracterizado pela dificuldade de controlar o hábito de jogar, mesmo quando ele causa prejuízos à vida pessoal, familiar, acadêmica, profissional ou financeira. A pessoa passa a priorizar os jogos em detrimento de outras atividades importantes e encontra dificuldade para interromper esse comportamento sem ajuda.

Como saber se gosto de jogar ou tenho compulsão?

Gostar de jogar não significa, necessariamente, que exista uma compulsão. O sinal de alerta surge quando o jogo deixa de ser apenas uma forma de lazer e passa a dominar a rotina. Se a pessoa perde o controle sobre o tempo dedicado aos jogos, negligencia compromissos, afasta-se da família e dos amigos ou continua jogando mesmo diante das consequências negativas, é importante buscar uma avaliação profissional.

Compulsão por jogos tem tratamento?

Sim. A compulsão por jogos pode ser tratada com acompanhamento psicológico e, em alguns casos, com uma abordagem multidisciplinar. A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) é uma das abordagens mais utilizadas por ajudar a identificar pensamentos e comportamentos que mantêm o problema, favorecendo o desenvolvimento de estratégias para recuperar o controle sobre o hábito de jogar.

Quando procurar um psicólogo?

É recomendável procurar um psicólogo quando o hábito de jogar começa a interferir na rotina, nos relacionamentos, no desempenho escolar ou profissional, ou quando a pessoa percebe que não consegue reduzir o tempo dedicado aos jogos por conta própria. Quanto mais cedo o problema é identificado, maiores são as chances de um tratamento eficaz.

Crianças e adolescentes também podem desenvolver compulsão por jogos?

Sim. Embora pessoas de qualquer idade possam apresentar esse transtorno, crianças e adolescentes merecem atenção especial, pois ainda estão em fase de desenvolvimento emocional, cognitivo e social. Mudanças bruscas de comportamento, isolamento, queda no rendimento escolar e perda de interesse por atividades antes apreciadas podem indicar a necessidade de uma avaliação profissional.

Quanto tempo jogando é considerado excessivo?

Não existe um número de horas que, por si só, caracterize uma compulsão. O mais importante é observar o impacto que os jogos têm na vida da pessoa. Mesmo quem joga poucas horas por dia pode apresentar um comportamento problemático se perde o controle sobre esse hábito ou sofre prejuízos em outras áreas da vida. Da mesma forma, algumas pessoas conseguem jogar por períodos mais longos sem que isso comprometa sua rotina ou seus relacionamentos.

É possível recuperar o controle sobre os jogos?

Sim. Com o tratamento adequado e o comprometimento do paciente, é possível desenvolver uma relação mais saudável com os jogos ou interromper esse comportamento quando necessário. O apoio da família, a identificação dos fatores que desencadeiam a compulsão e o acompanhamento psicológico são fundamentais para promover mudanças duradouras e melhorar a qualidade de vida.

Como a família pode ajudar uma pessoa com compulsão por jogos?

O apoio da família faz diferença durante o tratamento. Em vez de julgamentos ou confrontos, o ideal é manter um diálogo aberto, demonstrar preocupação de forma respeitosa e incentivar a busca por ajuda profissional. Também é importante compreender que a compulsão por jogos é um transtorno que exige acompanhamento especializado, e não apenas força de vontade para ser superado.

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