Embora a ludopatia seja reconhecida pela Organização Mundial de Saúde desde a década de 1980, o termo ainda é bastante desconhecido e até parece complicado.
Como o próprio nome diz, “ludo” remete aos jogos, enquanto “patia” significa doença. Desta forma, na junção, se obtém como definição termos como “transtorno do jogo” ou “vício em apostas”.
Infelizmente, essa é uma realidade que atinge diversas pessoas em todo o mundo. O vício em jogos cresce no Brasil e tem afetado a vida de muitos, levando a consequências sérias e, em alguns casos, irreversíveis.
Nos últimos anos, o cenário das apostas esportivas e dos cassinos online no Brasil cresceu exponencialmente. Em junho de 2024, A CNN Brasil publicou uma pesquisa que aponta que o setor de apostas online no Brasil cresceu 734% desde 2021.
Esse crescimento, aliado à facilidade de acesso via celular e à falta de regulamentação efetiva até recentemente, cria um ambiente fértil para o desenvolvimento de comportamentos compulsivos.
A facilidade de acesso a jogos de azar, tanto presenciais quanto online, tem contribuído cada vez mais para o aumento do vício em apostas. E talvez o mais importante a se saber é que o vício em apostas não escolhe perfil específico: pode afetar tanto jovens quanto idosos, homens e mulheres, de diversas classes sociais.
A variedade crescente de opções de jogos disponíveis torna a ludopatia uma ameaça para qualquer pessoa minimamente propensa a comportamentos impulsivos e compulsivos.
Além disso, a explosão do número de acessos é intensificada pelas propagandas veiculadas em redes sociais e relacionadas a nomes de famosos e bem-sucedidos esportistas, como jogadores renomados de futebol, por exemplo.
Dessa forma, ao associar a ideia de que são necessárias quantias aparentemente pequenas para obter resultados similares aos de um jogador famoso, o indivíduo é impelido a apostar constantemente, construindo rapidamente um hábito que acaba se revelando compulsivo e, por consequência, completamente destrutivo.
Uma dependência como qualquer outra
Assim como em qualquer outro vício, quem desenvolve o vício em jogos acredita desde o início que o jogo não é um problema, que conseguirá parar de jogar quando quiser, e todos os clichês que acompanham qualquer dependência.
Contudo, o efeito interno gerado no cérebro é o mesmo: a euforia, o prazer e a excitação causadas pelo jogo vão sendo cada vez mais uma necessidade constante, e em doses sempre maiores.
Com o tempo, toda vez que obtém um mínimo ganho, a sensação parece tão boa para o jogador que ele acaba desejando mais e mais, pois há uma dependência dos chamados “picos de prazer”, que podem ser buscados não só nos jogos, mas também em outras dependências simultâneas, como álcool e drogas, o que pode impactar negativamente não só a vida do jogador compulsivo em si, mas também a de todos os que o rodeiam, como familiares e amigos próximos.
Além do prejuízo financeiro, o vício em apostas causa uma deterioração emocional significativa. Famílias costumam relatar mudanças bruscas de humor, isolamento social e mentiras constantes como tentativas de esconder o problema.
A sensação de culpa e vergonha é comum, e pode levar a quadros de ansiedade e depressão. Por isso, é fundamental compreender que a ludopatia é uma condição médica e psicológica — não uma falha de caráter. Esse entendimento ajuda não apenas na adesão ao tratamento, mas também na redução do estigma em torno da doença.
Vício em apostas: o perfil
Às vezes, identificar se você ou alguém próximo está enfrentando um vício em apostas pode ser desafiador, pois muitas vezes os sinais são sutis e podem ser negligenciados.
Alguns estudos recentes revelaram que o grupo com maior propensão a distúrbios como a ludopatia é formado por homens entre 30 e 50 anos, normalmente com perfil competitivo e desempregados.
No caso dos indivíduos estudados e que possuíam um emprego, geralmente se constatava uma renda baixa, e algumas vulnerabilidades, como dificuldades de serem aceitos socialmente.
Um estudo de pesquisadores da USP apontou que cerca de 12% dos brasileiros já apostaram pelo menos uma vez.
O jogo entra na vida dessas pessoas como uma tentativa de ganhar ou multiplicar o pouco que possuem, ou ainda como uma forma de alcançar certa popularidade.
Sintomas
Alguns dos sintomas mais comuns do vício em apostas incluem:
- Compulsão: Incapacidade de resistir ao impulso de jogar, mesmo quando consciente das consequências negativas.
- Preocupação Excessiva: Pensamentos constantes sobre jogos de azar, planejando a próxima aposta mesmo em situações inapropriadas.
- Aumento nas Apostas: Necessidade de apostar quantidades cada vez maiores de dinheiro para alcançar a mesma emoção.
- Inquietação e Irritabilidade: Sentimentos de inquietação e irritação quando tenta parar de jogar.
- Falta de Controle: Incapacidade de interromper ou controlar o comportamento de jogo, mesmo diante de perdas significativas.
- Mentiras e Enganos: Mentir para familiares, amigos ou terapeutas sobre a real extensão do envolvimento com o jogo.
- Consequências Pessoais e Profissionais: Problemas financeiros, prejuízos nas relações familiares e no trabalho devido ao vício.
Se você ou alguém que você conhece apresentar alguns desses sinais, é crucial buscar ajuda profissional para a devida avaliação e o apoio necessário, não só por conta dos sintomas, mas também das codependências, ou seja, demais problemas que, associados ao vício em jogo, podem piorar o quadro, além de mascarar o correto diagnóstico.
Algumas dessas adicções complementares podem incluir o vício em drogas ou álcool, e os diagnósticos equivocados podem girar em torno de depressão, bipolaridade, alcoolismo e até tumores cerebrais.
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Vício em apostas e os níveis de comportamento
Alguns especialistas inclusive mensuram o descontrole nas apostas em alguns níveis de comportamento.
Estes variam desde manter o controle das próprias emoções e sensações relativas ao jogo, passa por um nível intermediário, no qual ainda há algum controle, mas já demandando uma bela dose de esforço consciente, e pode alcançar um nível total de descontrole, quando há a necessidade de uma intervenção externa.
Neste último nível, o indivíduo, por si mesmo, não consegue controlar em absoluto o vício, parando apenas quando não há mais comida, dinheiro, por exemplo, ou mesmo a possibilidade de obtê-los.
Consequências do descontrole
Entre as consequências possíveis desse descontrole desmedido estão:
- Aumento constante da compulsão por apostar;
- Necessidade de apostar valores cada vez maiores;
- Mudanças bruscas ou instabilidade de humor;
- Tentar várias vezes parar de jogar, mas sem sucesso;
- Pensar constantemente em jogo: avaliando como deveria ter feito, ou planejar como faria uma nova tentativa;
- Sentimento de tédio ou angústia mediante demais formas de diversão, especialmente quando não envolvem apostas;
- Ilusão de que conseguirá reaver o valor já perdido;
- Negação do problema e isolamento social, sob a justificativa de que ninguém irá compreender;
- Arrisca relacionamentos familiares, amizades, finanças e emprego em nome de apostar;
- Depende cada vez mais de outras fontes de renda (não importando de onde venham) para sustentar o vício, podendo levar à falência total não só do viciado, mas também de todos os que o cercam.
Em alguns casos, quando essas consequências são percebidas, já se passou tempo demais. Daí a importância de ficar atento desde o início, quando se manifestar minimamente qualquer um desses sinais.
O governo brasileiro tem buscado criar medidas para regulamentar o setor e conter os efeitos nocivos das apostas. Em 2023, foi sancionada uma lei (Lei 14.790/2023) que estabelece regras para a operação de casas de apostas e prevê campanhas de conscientização sobre os riscos da ludopatia.
Essas iniciativas são importantes, mas ainda insuficientes diante da velocidade com que o vício se propaga, especialmente entre os jovens. A informação e o acesso a tratamento especializado continuam sendo as principais armas contra o problema.
Tratamento para o vício em apostas
O tratamento do vício em apostas envolve uma abordagem multidisciplinar que engloba aspectos médicos, psicológicos e sociais.
Segundo o psicólogo clínico Marcelo Parazzi, especialista em Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), o primeiro passo no tratamento é o reconhecimento da perda de controle. “Quando o indivíduo compreende que o jogo deixou de ser uma diversão e passou a dominar sua rotina, conseguimos iniciar o processo terapêutico de forma mais assertiva, reestruturando pensamentos e emoções associados ao vício”, explica o especialista.
Aqui estão algumas das opções comuns de tratamento:
- Aconselhamento Psicológico: A Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) tem se mostrado eficaz no tratamento da ludopatia, ajudando a identificar e modificar padrões de pensamento disfuncionais;
- Grupos de Apoio: Participar de grupos de apoio, como Jogadores Anônimos, oferece um ambiente de compreensão e compartilhamento de experiências com pessoas que enfrentam desafios semelhantes;
- Tratamento Medicamentoso: Alguns medicamentos podem ser prescritos para tratar sintomas relacionados à ansiedade, depressão ou impulsividade, ajudando no controle do vício;
- Aconselhamento Financeiro: Profissionais financeiros podem ajudar a desenvolver estratégias para lidar com dívidas e reconstruir a saúde financeira;
- Suporte Familiar: O envolvimento da família é crucial para o sucesso do tratamento. Ter o apoio de entes queridos cria um ambiente de suporte durante a recuperação;
- Tratamento Ambulatorial ou Internação: Dependendo da gravidade do vício, pode ser necessário um tratamento ambulatorial ou até mesmo internação em casos mais extremos.
É possível superar o problema
Assim como em qualquer outra forma de dependência, o vício em apostas é uma realidade séria que afeta a vida de muitas pessoas, com consequências que vão além do aspecto financeiro. Apesar de ser uma condição tratável, precisa de uma abordagem multidisciplinar.
Reconhecer os sinais precocemente e buscar ajuda são passos essenciais para a recuperação. Com o devido diagnóstico e o suporte adequado de profissionais, terapeutas e grupos de apoio, é possível superar o vício em apostas e retomar o controle da própria vida.
Dada a quantidade de pessoas que sofrem dessa patologia, o fato é que, muitas vezes, nem mesmo toda a estrutura disponível no SUS consegue suprir as demandas.
A melhor arma contra o aumento de casos de vício em jogos ainda permanece sendo a conscientização sobre os riscos da ludopatia, bem como a disseminação de informações sobre os problemas que ela pode acarretar ao viciado e a todos os que o rodeiam.
Cada pessoa tem um ritmo e uma história diferentes quando o assunto é recuperação. A experiência clínica mostra que, com o suporte certo e um ambiente terapêutico acolhedor, é possível reconstruir não apenas o controle sobre o jogo, mas também a autoestima, os relacionamentos e o equilíbrio emocional. O tratamento é uma jornada de autoconhecimento e ressignificação, e a busca por ajuda é o primeiro e mais importante passo.
Perguntas frequentes sobre vício em apostas que recebemos na clínica
O que é o vício em apostas?
O vício em apostas, também conhecido como ludopatia ou transtorno do jogo, é uma condição psicológica caracterizada pela incapacidade de controlar o impulso de jogar, mesmo quando isso traz prejuízos financeiros, emocionais ou sociais. Trata-se de um comportamento compulsivo, e não de falta de força de vontade.
Quais são os principais sinais de vício em apostas?
Entre os sintomas mais comuns estão:
- necessidade de apostar quantias cada vez maiores para sentir a mesma emoção;
- irritabilidade ou ansiedade quando tenta parar de jogar;
- mentiras para esconder o comportamento;
- prejuízos financeiros e problemas familiares.
Quando o jogo passa a dominar a rotina e o pensamento, é sinal de que o comportamento se tornou patológico e exige acompanhamento profissional.
O vício em apostas tem cura?
Sim, o vício em apostas tem tratamento e recuperação possíveis. Embora seja uma condição crônica, por isso cura não é o melhor termo, é totalmente possível controlar o impulso e reconstruir uma vida equilibrada. O tratamento geralmente envolve Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), grupos de apoio e, em alguns casos, tratamento medicamentoso para auxiliar no controle da ansiedade e impulsividade.
Como ajudar alguém com vício em apostas?
A melhor forma de ajudar é oferecer apoio sem julgamentos e encorajar a busca por ajuda profissional. Conversas calmas, demonstrações de empatia e envolvimento da família no processo terapêutico fazem toda a diferença. Evite assumir dívidas ou cobrir prejuízos do jogador, pois isso pode reforçar o ciclo de dependência.
As apostas online aumentam o risco de vício?
Sim. As apostas online são mais acessíveis, disponíveis 24 horas por dia e oferecem recompensas rápidas e constantes, o que intensifica o estímulo cerebral associado à dopamina. Essa combinação torna o ambiente digital altamente propenso ao desenvolvimento de comportamentos compulsivos, especialmente entre jovens e pessoas com histórico de impulsividade.
Qual o melhor tratamento para o vício em apostas?
O tratamento mais eficaz combina diferentes abordagens:
- Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), para reestruturar pensamentos e comportamentos relacionados ao jogo;
- Quando necessário, acompanhamento psiquiátrico para tratamento medicamentoso;
- Grupos de apoio, como Jogadores Anônimos;
- Aconselhamento financeiro e suporte familiar;
- Em casos mais graves, internação terapêutica temporária pode ser indicada.
O sucesso do tratamento depende da adesão do paciente e do suporte emocional de familiares e profissionais especializados.
Quando procurar ajuda?
O momento ideal é assim que surgirem os primeiros sinais de perda de controle — como jogar para recuperar prejuízos, esconder gastos, ou sentir ansiedade longe das apostas. Quanto mais cedo houver intervenção, maiores são as chances de recuperação completa e de evitar consequências mais sérias.
É possível prevenir o vício em apostas?
Sim. A prevenção envolve educação emocional, autoconhecimento e limites claros quanto ao tempo e dinheiro investidos em jogos. Também é importante evitar aplicativos e plataformas de apostas e buscar atividades que ofereçam prazer e recompensas de forma saudável, como esportes, leitura e convivência social.
Observação importante
O vício em apostas é uma condição de saúde mental reconhecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e requer acompanhamento especializado. Se você ou alguém próximo apresenta sintomas, procure um psicólogo ou psiquiatra. O diagnóstico precoce aumenta as chances de recuperação e evita danos mais profundos.
Clínica Marcelo Parazzi
Se você tem passado por isso ou conhece alguém que esteja enfrentando esse problema, a Clínica Marcelo Parazzi pode ajudar.
Nossa abordagem combina Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), por meio de tratamentos tradicionais com psicólogos e terapias complementares que comprovadamente auxiliam nos resultados do tratamento.
Oferecemos Terapia à Distância para pessoas que residem fora do país ou que preferem realizar as sessões em casa. Agende sua avaliação e dê o primeiro passo para a recuperação.
*Conteúdo publicado em março de 2024 e atualizado em novembro de 2025.
